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Relatos do II ENSL

O ENSL é o Encontro Nordestino de Software Livre, que esse ano foi realizado aqui em Aracaju. Infelizmente, o evento foi fechado, com inscrições bem caras (no dia do evento custavam R$80, com desconto de R$10 para estudantes), o que diminuiu consideravelmente o potencial de difusão local do evento. A grade de programação foi bem extensa (palestras simultâneas em quatro salas e várias oficinas) e diversificada, com palestrantes de várias partes do país. Paralelamente, foi realizado também o IV Fórum GNOME, que trouxe boas discussões ao evento.

1º Dia

As palestras do primeiro dia mostraram que o evento iria bem além da minha expectativa. De manhã, não pude chegar logo cedo, então perdi a oficina de João Bueno Calligaris sobre o Gimp e a palestra de Célia e Celina sobre Cultura Livre. No entanto, cheguei a tempo de acompanhar a palestra “Digitofagia e Digitoemia”, em que aconteceu uma boa discussão sobre formas de resistência contra-hegemônicas através das ferramentas digitais.

À tarde, vi a palestra do Danilo César, sobre Robótica Livre. O Danilo tem feito um trabalho em escolas de Minas Gerais e de Salvador, mostrando o potencial pedagógico da robótica feita com software e hardware livres e materiais reciclados. Tem um vídeo feito no Ceará por Philipe Ribeiro que mostra como é esse trabalho.

Também vi de perto pela primeira vez o laptop do projeto OLPC. Vi uma palestra bem divertida do Frederico Gonçalves sobre o uso de software livre na educação. A palestra do Frederico me mostrou quão revolucionário é o potencial do software livre na educação. Vou usar e divulgar mais os softwares educativos!

Por fim, veio a abertura oficial do evento, que eu não achei nada interessante. Começou com a execução do hino nacional, acompanhado por uma projeção de imagens de Sergipe… Execução de hino nacional, pra mim, tá longe de ser exemplo de amor pelo lugar em que se vive… Esqueci de dizer que o evento teve o apoio da micro$oft. Deram até espaço para uma palestra de um funcionário dela… Depois do hino, o presidente do Linux-SE (o grupo que organizou o evento) fez um discurso bastante alienado, em que defendeu até o padrão japonês de TV Digital, segundo ele, porque o Japão se comprometeu a compartilhar conhecimentos e instalar no Brasil uma fábrica de semicondutores. O padrão japonês só favorece as grandes emissoras de TV e a manutenção de oligopólios nos meios de comunicação brasileiros.

2ª Dia

No segundo dia, vi uma palestra bem divertida sobre como avaliar e escolher distribuições, fruto de uma pesquisa feita por três estudantes de computação de Campina Grande. No final, rolou um “flame war” bem divertido, onde cada um defendia sua distro.

À tarde, Rubens Queiroz de Almeida, criador e mantenedor do site Dicas-L, falou sobre “Software Livre e Propriedade Intelectual“, apesar do pouco tempo disponível, ele conseguiu esclarecer várias questões envolvidas na propriedade intelectual. O Rubens tem uma longa história com software livre e é dono de um humor fantástico. Depois vi a palestra da Patrícia Fisch sobre uso de LTSP na escola pública. Incrível como ela consegue falar de tecnologia de uma forma tão mais humana, ela explicou como funciona o LTSP de uma maneira que qualquer um entende e com poucos termos técnicos… Gostei também dos relatos dela sobre como ajudar as pessoas a migrarem pra GNU/Linux: fazer cadastro das pessoas em InstallFests e sempre manter contato para saber se continuam a usar GNU/Linux e quais são as dificuldades.

Nesse dia ainda teve a palestra do Sérgio Amadeu, ele é um dos caras que falam de software livre de forma mais politizada no Brasil. Sempre que vejo uma palestra dele, saio de lá mais consciente da importância de lutar pelo software livre. Na sua fala, ele abordou algumas questões que representam riscos para a liberdade na rede, como o DRM e tentativas de controle sobre o tráfego da internet.

Pra finalizar o segundo dia, fui ver a palestra do Nathan Wilson, um gringo que trabalhou na migração dos computadores da dreamworks para GNU/Linux. A palestra dele teve pouca coisa interessante e revelou mais uma das contradições do evento. Apesar de usar GNU/Linux, a dreamworks utiliza uma plataforma gráfica proprietária e exclusiva deles, repetindo aquela conhecida história das empresas parasitas: “o software que os outros fazem é livre, o que nós fazemos é só nosso”. Além disso, nessa palestra, o público do evento ficou proibido de fazer fotos, filmar, gravar áudio e usar celular na sala. Qualquer tentativa de recuperar a liberdade perdida era reprimida pelos organizadores do ENSL que ficaram o tempo todo policiando o auditório. Atitude vergonhosa para um evento de software livre.

3º Dia

No último dia, um belo domingo de sol, a programação foi um pouco mais curta. Comecei vendo mais uma palestra do Frederico Gonçalves, “Software livre e a extinção dos dinossauros”. O Frederico é biólogo e traçou um comparativo muito interessante entre o software livre e a forma como a vida no planeta se organiza e evolui.

Depois fui ver a palestra de Silvio Palmieri, do Linux-SE, “Lebertas antes que tardia”. Apesar do bom humor e da irreverência do Silvio, achei que a fala dele ficou focada apenas em criticar o window$ e a micro$oft. O GNU/Linux foi abordado apenas como um sistema superior tecnicamente ao window$ e não enquanto representante de uma ideologia de liberdade.

Na “GNOME, um bazar organizado”, Vicente Aguiar mostrou como é organizada a comunidade do GNOME, descrevendo as funções das diversas equipes, alguns dos princípios que regem a comunidade e como é possível contribuir com o GNOME. A forma de organização das comunidades de software livre é um dos temas que eu tenho me interessado em pesquisar ultimamente.

À tarde, apresentei minha palestra sobre produção de animação em software livre. Depois teve o encerramento do evento, mais uma vez com hino nacional e com aquelas longas e entediantes falas dos organizadores…

“Caminhando por caminhos livres”

Há muito tempo, acho que lá pelo ano 2000, eu já ouvia falar do Linux, um sistema operacional alternativo ao ruindow$ que eu sempre via nas bancas de revista. Naquela época, eu ainda não tinha conhecimento sobre o que era software livre, mas já sentia vontade de experimentar o Linux, principalmente porque nunca estava satisfeito com o desempenho do ruindow$ no AMD K6-II que eu tinha. No entanto, o medo foi maior e eu não cheguei a comprar uma daquelas revistas que traziam o CD do Linux.Passados alguns anos, eu já estava na universidade, já havia conhecido pessoas do movimento pelo software livre e já tinha perdido o medo. Quando comprei um computador, decidi usar apenas o Linux. O vendedor da loja me chamou de louco quando eu falei que queria que meu computador fosse entregue sem ruindow$ no HD, mas eu segui em frente…

Assim que o computador foi entregue em minha casa, instalei o Fedora Core 4 sem dificuldades. O conhecimento que eu tinha de Linux era quase nenhum, no entanto a ideologia do software livre me fez seguir em frente e fui aprendendo a utilizar o sistema e superando os problemas que apareciam.

Na mesma época em que eu comprei o computador (agosto de 2005), participei de uma oficina de produção multimídia em software livre realizada em Aracaju pelo projeto Pontos de Cultura do Ministério da Cultura. Há algumas semanas, eu havia começado um curso de iniciação ao audiovisual num ponto de cultura daqui e a oficina fazia parte da programação desse projeto. Foi aí que conheci toda a ideologia presente na construção do projeto Pontos de Cultura e passei a admirá-lo bastante a partir de então.

Depois da oficina, continuei aprendendo mais sobre o Linux… Sempre que tinha alguma dúvida, eu procurava ajuda na comunidade da Fedora Core Brasil ou no Google mesmo. Em pouco tempo, eu já estava compartilhando o conhecimento que eu tinha e ajudando outras pessoas com dúvidas na utilização do GNU/Linux e de outros softwares livres.

Meses depois, participei do Encontro de Conhecimentos Livres em Cachoeira/BA onde foram realizadas oficinas de vídeo, áudio e gráfico em software livre e também de metareciclagem, mas dessa vez com mais tempo e muito mais conhecimento compartilhado.

E assim o pinguim virou um grande companheiro…

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